Domingo, 12 de Setembro de 2010

Nocturno


«Oiço o palco», Digo
..Oiço cada um dos montes
....................................a terra fria
..a fonte quente.


Aproxima-nos um incêndio preso
...................................e uma ordem impedida

.................frestas cerradas entre tempos
obtusos cantos
................pautas par ti da s.


(A roda acomoda o cerco
o esboçar da teia
o desenhar do ciclo)


Rasgos de pedra acendem-te
....................................ao gesto antigo
...................ao código cerrado
...ao outro lado da esfinge.


(Aos pulsos,
.............amarro a revolta em grito...)


Somente um rosto
......................finamente sustido

parecia cindir-se em farpas breves
................................................leves
....................................sucessivas

aludindo ao desgaste
.............................das on~da~s
.....................suspensas
sobre ti.


No interior da lágrima
o silêncio é teu

...........Único sedimento do templo
................................................inscrito
...................................Em jade.


Escuto as raízes das pedras
.......................................que
.............................................como .r u n a s
imprimem no corpo
.........................o clamor
..................já extinto
das sebes.


«Vejo um globo», Digo
..Vejo cada um dos vales
.................................o turvo signo
..o surdo termo.


Imagem: «At the surface», Elisabeth Gustafson

Sexta-feira, 3 de Setembro de 2010

Interlúdio

Por sobre a terra,
o ceptro encerra a curva
................................aberta
.......................em nós

E o fumo desce das árvores
.................................como arcos
silencia-me aos poucos
prolonga-te os traços

Absorve-me, do gesto,
............................o Medo.


(As folhas coavam como tons
cobriam os espaços
nomeavam o Tempo)


Do fogo,
converto o ponto em chama
..................................a clave em som
.............o contorno em desígnio.


Um passo atrás na noite
e a luz seria a face do verso
....................................em chama.


(As folhas atingem o corpo
embaciam os passos
incorporam-se no vento)


No foco da margem,
....................o suspiro estremece o corpo

as paredes apartam-se
.............................das formas
as escadas distanciam-se
.................................em sopros

E da linguagem desfocada das sombras,
ressurge o movimento atado
.....................................do rosto.


(Que rumor negro me arrasta,
.....................................aos tombos,
...............................do solo
entre as dobras dos muros
e as saídas apertadas
............................entre mãos?)


Um passo mais na noite
e o claro corpo será a tocha inteira
derramando-se, oculta,
..............................no Sonho.


29/08/2010


Imagem: «Eclipse Lunae», Mauro Mendula

Leitmotiv

Entre mim e a noite,
.......................há um silêncio povoado

e um vento desenhado às mãos

quando ao fogo concedo o rosto
.........................................E a sombra

e por degraus obscuros aparto o sopro
...................................................Do medo


(A chuva que bate no corpo
..................................tem uma ordem sísmica...)


Das pedras,
.................solta-se o curso sem passo

...........o reconhecimento oculto do traço

Uma morada eterna,
.........................Um abismo.


Que amarga cadência me fala?

..........Que...p..o..n..t..u..a..d..a...pertença me cega.?


Perdi a certeza do coro,
................................da sucessão do trono

do Teu desígnio...


Perto das horas,

assinalo o termo dos laços

..................................o pano/em dobra

..............a desordem...es
......................................co
............................................rri
.................................................da


(Resgato, da letra,
..........................a estrofe

.................................o rodar esbatido do Norte

........Um temor sustido)


Das ruas, sei de cor a

..................................q
.....................................u
........................................e
...........................................d
..............................................a

......os portos contados,

............................os gestos proscritos


[Entre mim e a noite,
.......................existe um (d)espaço em grito...]


E re-digo,

«Hão-de estender as escarpas
.....................................os seus mantos
............................como arcos

e embora o sonho já não abrace o abismo,

serei a face inteira
......................da passagem
............do teu gesto

Onde a sombra que precede o rosto
....................................respira um corpo só.»


07/06/2010


Imagem: «about lonely days», Christofer Grandin

Post-Scriptum

S
e
n
t
o - me

como se ainda te escutasse

Como se este lugar vazio....nada me dissesse
como se, do princípio, restasse
........................................a me tade

(E do comprimento oculto
.................................da lágrima,

rompesse o movimento silenciado
...........................................do verso.)



Tranco a voz em concha
.............................na mais escura fraga.

E, do fundo das águas, recua
.....................................o clarão
da treva.



São destroços de mármore
ao longo do lado decifrado
.................................do canto

...............São dois palmos
.....................a meio

e um archote vergado
...ao centro.


(Serão passos sobre espaços

...................................formas libertas
que se escoam.)



Ao nascer da névoa,
........................as primeiras aves
............emergem
do tempo


Pelas arcadas nuas
........................Sobre as terras fundas


No tear da pausa
.....................de um rosto incompleto.



P..r..o..l..o..n..g..o..-..m..e

.....................onde as aves se despedem

E sobre as inicias
...................s-o-l-e-t-r-a-d-a-s
.........................................do nome

Inscrevo «Sobre-nome

............................do Meu Começo»


04/06/2010


Imagem: «Absence», marlusz robak

Quarta-feira, 19 de Maio de 2010

O Pulsar do Des-Tempo

Da folha marco

...compasso...a...compasso

o Des-tempo.

(À copa do grito
……………………..do fosso

de um rastro de fenda
……………………………… de dor.)


Toda a memória ocupou o espaço das mãos


Marcou as ruas embaciadas
………………………………………….de teias
Ergueu, do mapa,
………………………….o claro abismo

E reteve, à boca,
………….. o rumor vedado
de outro tempo.


(Um sopro apagado rasga o lume indeciso)

Nas margens dobradas
…………………………….. em pedras
Às velas caladas
……………………… de-longadas
no vazio.


«Dá-me um segredo antigo
que, discretamente,
…………………………… te revele
ao meu lado

Nos braços manuscritos do sonho
Nas curvas esculpidas do fogo
Nas armas despidas
…………………………… rendidas
sem fio.»


(Sobra-me o vapor cerrado
……………………….. contra a lenda esquiva)

Ao pulso interdito do verso
………………………………………sem re-verso
que se anuncia.


«Fala-me do lugar sem rosto
……………………………………….. das estátuas
Do contorno suprimido,
……………………………… Obscurecido
das horas.

Do desfolhar esbatido,
…………………………….. Adormecido
das águas.

(Do muro ausente,
………………………… Presente
em espada.)»


(Um surto de sombra desenha o vulto impreciso)

Nas portas caídas
………………………… em terra
Às linhas cruzadas
……………………….. derrotadas
sem abrigo.


No alto do corpo,
……………………..o poema nasce da tarde
como um acorde esquecido

Junto às paredes vincadas das heras
Rente ao rebordo sucessivo dos mitos
Sobre o lugar inacabado
………………………………….. da frase

(Ao longo da noite,
……………………… Gravada
em suspiro.)


Escolho a Palavra fechada
………………………………. e o gesto oculto


(Faces impossíveis onde somo

...compasso...a...compasso

o Tempo.)


16/05/2010


Imagem: «23 past 5´clock», Joana Costa e Diana Silva

Sexta-feira, 2 de Abril de 2010

Canção-Desamor

Dura o vulto que se debate
....................................vencido
....na posse da sombra,
.............................do sopro

.....da palma estendida
de perfil


(As vestes de
...................ca
......................em

.....onde as ramagens
............................se adensam)


Por uma vez, ergui o tempo
...................................sem ruptura
carreguei, do peso, a Palavra
cobri, ao ombro, a ruína
e fiz, do regresso,
......................o teu nome

(No tumulto do corpo erguido
....................................sustido
...sem resposta
..................sem sossego.)


[Este foi o verso póstumo
...............................que me restou
................................................da noite]

quando te devolvi ao silêncio oculto
...............................................do mar

com a sede que não tenho para esquecer
....................................................a passagem
.................sem regresso,
do mundo.


(Calmo é o grito contido
o gesto cerrado
..................empunhado
.............embuçado
sobre mim)


Manuscrito é o sonho
..........................que me cobre

absorto o sono
..................que me envolve

densa a entrada
...................que me impede


[Regresso ao templo da noite

.....................................ao Abandono

....................................................à Agrafia...]


...................«Desusado reflexo que me cantava,
.................................................................Amor...
....................também eu te ergui ao pacto

...............................(agora sepulto)»


...................«Desfasado eco que te cantava,
............................................................Amor...

.....................também tu escreveste a voz

..............................(agora sombra)»


[Esta é a face que se mantém
.......................................voltada
...............................................para o sonho]

recordando, devagar, o retorno
.......................................sem vestígio
............................das pedras

de um lugar anterior à soma
.....................................de todas as lanças mortas
...............................recaídas

............Onde iniciei a força
...................................sobre o fumo

(querendo mais um pouco
................................só mais um pouco
......................................................de ti.)


Versos despojados
......................deslocados
...............amontoados
sem regresso


(Páginas distorcidas
......................retorcidas
................desprovidas
sem retiro)


[Renego, do templo, a noite

....................................o Retorno

...............................................a Profecia...]


...............«Absurdo reflexo que te canta,
......................................................Amor...

................também eu selei aos lábios a promessa
....................................................................de te ser»


...............«Sinistro eco que me canta,
..................................................Amor...

................também tu me tomaste os olhos
........................................................como verbo»


(Remoto é o tempo de espera

................A voz inteira

.............................O côncavo regresso)


[Balbucio dor
Murmuro amor
Redigo «tu»]


......(E escuto a treva que me brota, da boca,
...........................................................em fio...)


«Mais uma vez, o tempo
..............................rompe
carrego, do peso, a Palavra
re-parto, ao passo, a vertigem
e faço, da pausa,
....................o meu termo.»


27/03/2010


Imagem: «Abandoned heart», Samuel Lakdja

à palavra concedo o signo do sonho

«entardece a hora
.....................em que me
...................................quedo

à penumbra do meu corpo

(aos teus traços ressoados à cadência
.................................................que te impede
às escadas distorcidas na iminência
..............................................do assombro
à pausa estendida à passagem
.........................................do amor


[ardem oa vales no rumor
.................................frag-men-ta-do
......................................................da tarde...]


teia sobre teia,
............meço o tecido espaçado
.....................entre nós
onde o espelho te prolonga o rosto
...........................................em acorde
sob o revolvido manto
..........................que se incendiara
............em lança
sobre ti.


«a harpa foi tocada
a integridade ao momento estendida
as colunas, de relance, tingidas
e os laços encadeados
............................sem dobras»

(falava baixo sob o contorno
..................................das margens
quando, de lado a lado,
as águas atravessaram o tempo
repousando silenciosamente
..................................sobre nós)


[desprendem-se as cartas do rumor
.......................................des-com-pa-ssa-do
...............................................................da noite...]



de nome em nome,
...manejo o sopro curvado
...............................forjado
.....................embaciado

que se re-parte
..................aos dedos

como fogo desabado ao centro
da estrofe


«amanhece a hora
......................em que me
espero

na demanda do meu corpo

(dos teus traços cerrados à memória
..............................................que te ergue
do relevo que te marca à proximidade
.................................................do verbo
do retrocesso que te alonga à centelha
................................................que te escreve


o pano move-se contra as fachadas
............................................que me rondam
onde à sombra se regenera o voo
.............de voz em voz
..............................sem cessar


«a chave foi rodada
as rochas cobertas de névoas
o fósforo vertido ao vulto
e o vento repousado
.........................à mão»

(como se o tempo não voltasse
...............nunca mais
até que aos meus olhos se juntasse
..............................................um rosto
que era teu)


desmonto as frases
........................refaço-as
nelas retomo o nó de um templo erguido
....................................................de formas
onde às palavras se sobrepõe a brancura
...................................................das vozes


[dobro-me sobre as portas
...............................que se distendem
.....................................................num gesto]

onde cegamente retomo o lugar
.........................................que te pertence

e à palavra concedo o signo do sonho
...............que me revolve:

«lanço-me onde as vozes se confundem
e destino as asas para me Reescrever
...............................................Inscrever-te
Escrever-me em ti.»


01/03/2010