Quarta-feira, 16 de Dezembro de 2009

nos entre-espaços do tempo

quero ver o mar
dos vidros que me negam os olhos
onde nenhum conforto me basta
ao vapor que me aquece
............................e inunda


(as sombras caem das árvores
................................le ve men te
.........................................como folhas...)


quero percorrer a plumagem púrpura
........................................das ondas
o fosso que me leva ao fundo
................................das águas
o líquido caminho surdo
.........................das pedras
a tocha quente
.................rente
.........................que me desarma.

«desfolho um tronco
engelho-me
desfere-me a luz»

deambulo em recifes secos
......................espelhadas teias
...............................difusos silvos

no meu corpo arrastam-se fendas
orlas obscuras em que me vejo
portas que se seguem a portas
vendados trilhos
................decaídos
sem termo.


(há um grito que se prende na abertura
..........................................dos lábios...)


é quarto-crescente e os ramos abrem fissuras
enceno um vulto de aço na opacidade das pedras
pontuo os entre-espaços debruados do meu tempo
e movo-me num mesmo espaço segredado
...............................................que o teu.


(uma meia-palavra será o som com que vacilo
......................................................e sufoco...)


o meu rosto é o teu rosto

quadro onde recupero o cordel
..................................dos lábios
as palavras cálidas
....................como flâmulas

os testemunhos da continuidade
.......................................da voz


(os ombros decaem
.....................lon ga men te
...................................como heras...)

«toco ao espelho

embacio-me
é o reflexo que te volve»


Imagem: Dadank «Enigma», Ihdar Nur