Terça-feira, 19 de Janeiro de 2010

na véspera do verbo

«silenciar a voz, por trás da noite
suster o corpo, ao instante
verter os braços, no teu rosto
ser a matéria, em sangue, no rebordo
...........................................da estrofe»


(registo as frases fechadas
...............................tortuosas
........................................adiadas

......quase sem contorno
.......................quase sem embalo

.................................em que me quedo.)


carrego aos ombros o meu soneto de agonia,
na centelha suspensa da noite,
onde sinto a pausa
.....................dos meus gestos


conto as sílabas aos dedos
aguardo-te na véspera do verbo
à boca descerra-se a palavra repartida

e a sombra dobra-se à passagem das pedras
onde, esgotadas as vestes,
dou volta e meia
......................e num avanço
................recuo
sem destino.


«esta é a morada do avesso das lágrimas
onde escolhi reevocar o mundo
num decurso sem reverso»


concedo mais um traço no rosto
mais um verso que te guarda
e ainda que a madrugada me esqueça,
a fala arredonda-se num gemido
onde as mãos te ensaiam ao sonho
como esboços de um idioma esquecido


(arrasta-se um sopro, em tenor...)

.......por onde reverti ao sustido vocábulo sem tempo...


«vozes ancestrais ditam-me os passos do curso
onde as paredes se revestem de lodo
..........................................teia sobre teia
num tumulto de archotes erguido
à linguagem incomunicável dos amantes»


(num sopro, evola-se a continuidade do verbo,
......................................................em torpor...)


e ainda antes que o tempo se torne memória
sustenho o instante, no teu corpo
verto o desejo, nos teus braços
e revelo-te à voz, num sussurro…


«a noite espera-nos
sobre o regresso que assinala a senda - na mão,
que te escreve»

07/01/10


Imagem: «coldfinger», Leif Westling