«silenciar a voz, por trás da noitesuster o corpo, ao instante
verter os braços, no teu rosto
ser a matéria, em sangue, no rebordo
...........................................da estrofe»
(registo as frases fechadas
...............................tortuosas
........................................adiadas
......quase sem contorno
.......................quase sem embalo
.................................em que me quedo.)
carrego aos ombros o meu soneto de agonia,
na centelha suspensa da noite,
onde sinto a pausa
.....................dos meus gestos
conto as sílabas aos dedos
aguardo-te na véspera do verbo
à boca descerra-se a palavra repartida
e a sombra dobra-se à passagem das pedras
onde, esgotadas as vestes,
dou volta e meia
......................e num avanço
................recuo
sem destino.
«esta é a morada do avesso das lágrimas
onde escolhi reevocar o mundo
num decurso sem reverso»
concedo mais um traço no rosto
mais um verso que te guarda
e ainda que a madrugada me esqueça,
a fala arredonda-se num gemido
onde as mãos te ensaiam ao sonho
como esboços de um idioma esquecido
(arrasta-se um sopro, em tenor...)
.......por onde reverti ao sustido vocábulo sem tempo...
«vozes ancestrais ditam-me os passos do curso
onde as paredes se revestem de lodo
..........................................teia sobre teia
num tumulto de archotes erguido
à linguagem incomunicável dos amantes»
(num sopro, evola-se a continuidade do verbo,
......................................................em torpor...)
e ainda antes que o tempo se torne memória
sustenho o instante, no teu corpo
verto o desejo, nos teus braços
e revelo-te à voz, num sussurro…
«a noite espera-nos
sobre o regresso que assinala a senda - na mão,
que te escreve»
07/01/10
Imagem: «coldfinger», Leif Westling


